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Marina, um pequeno grande milagre (parte III)

3ª e última parte...


Passa mil coisas na sua cabeça nesse momento, quando eu cheguei na encubadora que a vi toda entubada, pequenininha, super frágil, aí que você se culpa, que você trocaria tudo por não estar vivendo aquele momento e você fica abalada em ver sua filha assim, pela primeira vez, daquele jeito. E quando eu quis chorar a médica disse "não, aqui não permitimos choro" e ela falou pra mim que a luta ia ser difícil, que a gente tinha que aprender a viver um dia de cada vez, que ia ser longa a nossa estadia ali, mas que quando eu estivesse naquela encubadora eu só trouxesse energia positiva, por que ia ser dessa forma que ela ia me sentir e eu seria a pessoa capaz de incentivá-la e impulsioná-la a lutar pela vida. Disse que ali eu não derramasse nenhuma lágrima e que da porta pra fora da UTI eu podia despejar todas as lágrimas que eu quisesse, mas que ali eu não podia fazer isso, que eu tinha que só trazer energias positivas. E foi com essa primeira exigência que eu me sustentei todos os dias que ficamos na UTI, porque o meu mundo podia acabar do lado de fora, podia estar sendo muito difícil, podia estar sendo muito doloroso, mas ao lado dela eu era forte, eu incentivava, cantava, eu só trazia coisas boas, eu falava...
As pessoas queriam saber, achavam que a gente não estava relatando tudo que estava acontecendo, as pessoas ficavam curiosas, as pessoas queriam entender tudo que tinha acontecido e, assim, era um momento muito nosso, não dava... A gente estava distante da família, a gente não tinha ninguém, então a gente tinha que se reorganizar, a gente precisava de espaço, a gente precisava viver aquele momento, então a gente se conteve muito à exposição. Toda vez que as pessoas mandavam mensagem, que falavam que estavam orando, eu chegava na encubadora e falava para ela, eu falava dos avós, de quantas pessoas estavam esperando por ela, torcendo por ela, que ela era a minha pequena guerreira, que ia dar tudo certo.


Mamãe em Construção: Quanto tempo a Marina ficou na UTI até ela ter alta? Como foi e o tempo que foi para vocês voltarem ao Brasil? E onde vocês ficaram enquanto a Marina estava no hospital?


BellaPor um tempo ficamos na casa de amigos que moravam lá e depois fomos para um apartamento que alugamos de brasileiros.
A Marina ficou 109 dias na UTI, depois que ela recebeu alta foram mais 3 semanas que a gente ficou lá em Nova Iorque porque os médicos estavam estudando a melhor possibilidade dela voltar. Eles explicaram que a pressão do avião é diferente da pressão normal, como ela teve esse problema pulmonar então eles tinham que ter certeza de que o voo seria tranquilo. Se fosse um voo de 3 horas, o médico explicava para gente, que eles não se preocupariam tanto, mas como era um voo de 8 horas seguidas, então essa foi a grande briga pra gente voltar. A gente ficou mais 3 semanas estudando a melhor forma e até para ver como ela reagiria nessas 3 semanas em casa para ver a melhor forma para voltar para o Brasil. 
Uma das médicas de Marina inclusive brinca que quando ela crescer a gente tem que contar para ela que ela nos fez refém em outro país, por que era a nossa realidade lá, a gente não podia voltar pra casa, pois era ela que nos segurava lá. Só podíamos voltar quando ela estivesse pronta.
E a gente se manteve como pode lá, felizmente, eu era empregada em 2 lugares, o meu marido tinha o emprego dele estável. Então o meu auxílio maternidade ajudou bastante a gente. Tudo que a gente recebia no Brasil era convertido para dólar e reduzia pela metade, mas foi uma fase de abrir mão de muita coisa e a gente sobreviveu. Deus nos orientou, colocou anjos na nossa vida, pois eu não posso esquecer, jamais, das pessoas que cruzaram no nosso caminho nesse tempo que nos ajudaram de todas as formas, tanto com apoio, com ajuda financeira, com tudo. Então foi tudo muito bem providenciado, os amigos, extremamente prestativos em tudo, e a gente conseguiu superar essa fase sem danos.

Mamãe em Construção: Vocês ainda tem contato com os médicos dela nos EUA? Ela ainda tem um pediatra lá que vocês entram em contato ou tudo foi passado para um médico no Brasil e agora na Alemanha?
Bella: A gente tem um vínculo muito grande com os EUA, porque como a UTI de lá é diferente daqui do Brasil a gente podia ficar 24 horas dentro da UTI. Eu chegava às 8h na UTI e saía às 8h da noite, então, praticamente, eu vivi dentro daquela UTI e às vezes a gente saía um pouco mais cedo, às 18h, e voltava à noite, para o banho da noite para poder levar leite. Eu amamentei Marina até 5 meses, então eu retirava leite e ia levar no hospital. A gente vive, praticamente, lá dentro, constrói uma família não só com os profissionais de saúde como também com as amigas que a gente faz lá na mesma situação, que a gente se espelha, que a gente se apoia.
Marina teve uma enfermeira que recebeu ela na UTI que marcou muito pra gente, a gente chama até que ela é avó de Marina, avó postiça de Marina, ela é uma enfermeira que faz parte da equipe do hospital há muitos anos, é a segunda enfermeira mais velha. E ela tinha uma relação de cuidado com Marina de neta mesmo, então a gente se afeiçoou a ela. Ela é filipina, mas como eu não falava bem o inglês ela se esforçando para falar o português, aprendeu algumas palavras e ela é nossa família. Então o canal de contato da gente com os EUA é a partir dela. 


Lá eles tem uma coisa muito bacana de que eles sempre levam as crianças para verem os profissionais, a relação de cuidados deles é impressionante, desmitifica totalmente aquela ideia de que o americano é frio, pelo contrário, eles foram extremamente calorosos e carinhosos com a Marina e com a gente. A gente tem contato, no final do ano todas as crianças que nasceram lá mandam um cartão de natal com a foto. A gente manda foto, manda pra Rose, manda vídeo dela, a cada etapa que ela supera a gente envia vídeo e eles ficam felizes, eles comemoram, eles perguntam, tenho eles no meu facebook. Falam quando é que a gente vai levar ela lá e criou um vínculo que é até difícil de descrever, porque quem vive dentro de um espaço, principalmente uma superação de dor, você cria um laço que você não consegue enxergar.
Quando chegou no Brasil, como a gente já estava de transferência para Alemanha, a gente ficou 1 mês e meio só no Brasil, foi muito rápido. Então Marina foi avaliada por um pediatra em Brasília, um em Rio Branco no Acre e um em Recife.
Ambos os pediatras surpresos com todo o histórico dela por tudo e como ela está, pois ela superou tudo, aparentemente, sem nenhuma sequela, mas eles não podiam receber o histórico dela, por que a fase de desenvolvimento dela ia acontecer aqui na Alemanha.
Então aqui ela tem um pediatra que foi quem avaliou ela inicialmente, inclusive aquilo de que deveríamos procurar profissionais que ajudassem no desenvolvimento dela não aconteceu, lá no Brasil a gente ouviu de alguns pediatras que a gente deveria procurar profissionais para assistir, mas quando ela chegou aqui na Alemanha, como eu tinha esse medo da gente ficar esse 1 mês e meio sem assistência, eu meio que aproveitei que eu sou psicóloga infantil e associei algumas técnicas de motricidade e comecei a desenvolver ela em casa. 
E quando ela foi avaliada na Alemanha o médico achou que não era necessário ela passar por etapas de desenvolvimento com fisioterapeuta, porque o que eu estava fazendo em casa estava sendo suficiente, ela estava se desenvolvendo muito bem. Ele inclusive falou que para a idade dela, ele pelos menos com ela, nunca usou a idade corrigida, eles nunca enquadraram ela dentro da idade corrigida, pelo contrário, o pediatra dela falava da idade dela de nascimento realmente. Ele dizia que para o idade dela de nascimento ela estava um pouquinho a menos, inclusive tinham bebês que tinham a idade dela que não faziam coisas que ela fazia, então aqui ela não foi classificada dentro da idade corrigida, então ela continua com a idade dela de nascimento e eu continuei desenvolvendo ela em casa.

Foi refeita todas as baterias de exame e até o momento, Marina está com 1 ano e 4 meses, ela não apresentou nenhuma sequela, nenhuma sequela motor, nenhuma sequela sensorial, foi feito exame de olhinho, de ouvido, de tudo e aparentemente o desenvolvimento dela está dentro do adequado. Inclusive, aqui eles fazem o controle até os 9 meses, depois eles não pesam e nem medem a estatura, só com 2 anos, sabemos quanto ela está pesando porque eu peso na balança em casa, mas a gente não sabe quanto que ela está medindo. Mas quando vemos ela perto de crianças da mesma idade, ela não aparenta diferença. No início as pessoas sempre perguntavam "ah ela é tão pequenininha" , mas agora ninguém fala mais.

-> Essa parte é a melhor!!!

Pelo contrário, você está ouvindo, eu tenho uma super encrenqueira que quer participar de tudo, quer falar inclusive. 


-> Gente, todo o tempo da entrevista eu escutei todos os barulhinhos e bagunças que a Marina estava fazendo na casa e ri muito, pois a Bella algumas vezes tinha que parar para atender as artes que a mocinha estava fazendo. A maior fofura do mundo!

Eu queria acrescentar mais um coisa, que isso fez uma diferença muito grande quando a gente ficou sabendo, nós só ficamos sabendo disso quando Marina já estava prestes a ter alta na UTI. A nossa enfermeira relatou pra gente que quando Marina nasceu que receberam o telefonema lá no NICU de que ela tinha nascido em tais e tais condições, foi acionado uma ambulância pra ir resgatá-la, só que a médica e a enfermeira que estavam de plantão que é outro anjo que tem na nossa vida que é a Kathleen, a médica foi a Sarah, elas se olharam e disseram que tinham que ir. E elas por conta própria pegaram os equipamentos, entraram dentro de um táxi, e chegaram em 15 minutos lá no hospital onde Marina nasceu. 
Então, eu gosto sempre de relatar isso, porque depois que Marina já estava perto de ter alta, a gente se deu conta de que isso fez uma diferença muito grande, porque a ambulância só chegou 40 minutos depois no local e elas chegaram 15 minutos depois, e foram elas que conseguiram estabilizar Marina naquele momento. E o que aquela enfermeira falou pra mim de que ela tinha que se chamar um milagre, eu concordo. Ela ficou, inclusive, durante muito tempo conhecida no hospital, as médicas vinham pedir para relatar o histórico dela, faziam um relato científico do nascimento dela, porque ela tinha sido um milagre. Então eu sempre conto essa história de que essas médicas fizeram a diferença e que se elas não tivessem chegado antes, talvez Marina ou não estivesse aqui ou fosse diferente, então eu sou muito grata a tudo isso. 
No dia que teve alta da UTI, até acho muito bacana isso que eles vivenciam lá, eles chamam de volta olímpica. A gente quando estava lá durante esses 3 meses e meio, a gente viu muitas voltas olímpicas, se emocionou muito com a partida dos bebês. Quando um bebê vai receber alta da UTI a enfermeira que é responsável por ele vem, arruma ele, é quem veste ele, quem dá o banho e aí depois ela sai fazendo uma volta olímpica na UTI, passando pelo braço de todas as enfermeiras, de um braço passa para outro, de um braço passa para outro e elas vão se despedindo. Pois como eu falei lá, elas criam um vínculo afetivo muito grande e assim para os pais é muito emocionante ver eles fazendo essa despedida, o quanto é importante para eles e assistir tudo isso, e para os pais que ainda estão lá é muito bom, porque é como se fosse uma dosagem de esperança. Eu brinco sempre que todas as voltas olímpicas que eu assisti, inclusive de bebês mais próximos a gente, eu me emocionava, chorava muito, porque dava uma esperança de que sua nossa hora ia chegar, era mais ou menos isso, além da felicidade de você estar de um bebê estar tendo alta, você criava uma parcela de esperança dentro de si, então eu acho um momento muito bacana esse momento da volta olímpica.
E quando terminou a volta olímpica, a gente foi pro quarto para esperar a papelada da alta, uma das médicas, que foi a médica que recebeu ela primeiro, na UTI eles fazem rodízio de médicos, Marina teve 4 médicos responsáveis por ela nesse tempo que estava na UTI, e a primeira médica que foi responsável por ela, que foi aquela médica que me disse que só pensamentos bons e aquela coisa toda que foi a Annemarie, ela esperou um momento que eu estava sozinha no quarto e foi até o quarto e quando ela chegou me pediu para tirar uma foto de Marina, pois ela queria ter uma foto de Marina. E eu falei "tudo bem, Annemarie, pode tirar". Nesse aspecto eles são extremamente reservados e quando ela tirou a foto, ela olhou pra mim e disse que gostava de ter a imagem de todos os milagres que passaram pela vida dela. Naquele momento eu fiquei muito emocionada, porque eu acho que quando, principalmente por ser um profissional de saúde, acho que quando um profissional de saúde reconhece que excedeu a ciência, que óbvio que ele fez o que estava ao alcance dele, que as circunstâncias fizeram a diferença, eu acho que isso dá uma injeção de ânimo no ser humano para vida de uma forma diferente, você passa a enxergar as coisas de uma forma diferente. 
Eu sei que desde o início a concepção de Marina já foi uma concepção muito esperada, muito desejada, com surpresa, eu achava que aquela descoberta de que eu estava grávida teria sido a grande surpresa da minha gestação, mas não foi, a grande surpresa foi essa espera. Por que quando você é mãe UTI, na verdade a gente continua a gestação dentro da encubadora, então eu gestei mais aqueles 4 meses de vê-la desabrochar, de vê-la fora do meu corpo, de muitas vezes querer pegá-la e colocá-la dentro da minha barriga de novo para ela não sofrer tudo aquilo que estava sofrendo. Mas a gente tem uma força que a gente não sabe explicar, eu tive uma amiga que na época ela desejou que Marina passasse por tudo isso bem, depois, recentemente, ela teve um filho prematuro e ela chegou para mim esses dias e falou assim "olhe Bella, quando você estava lá na UTI eu imaginava como difícil estaria sendo, mas depois que eu passei por tudo, só sabe o que a gente vive quem realmente vive dentro de uma UTI". E assim, pra mim, pode ser 3 meses, pode ser 1 dia, pode ser 2 dias, o fato de uma mãe assistir o filho dentro de uma encubadora, é um sentimento que só quem vive consegue descrever.


Como você pode ver, eu ainda me emociono muito porque é algo muito forte, eu, hoje sempre evito falar, eu não digo mais que Marina é prematura, é muito difícil eu dizer que ela é prematura. Eu tento desvincular de tudo isso, eu acho que ela tem que crescer com a ideia de que ela é uma criança sadia, normal, que foi tudo bem, que o nascimento dela só trouxe felicidade. Eu sempre tento mostrar por esse lado para ela, inclusive, quando eu falo e ela está por perto e às vezes eu choro, aí ela chora também, então eu não vejo isso como algo bom. Por isso, hoje em dia, eu evito falar e por isso que eu enrolei tanto na entrevista.
Eu espero que o meu depoimento ajude outras mães que possa dar apoio, eu sempre tento ajudar outras mães de prematuros que me procuram, no sentido de dar apoio, pois o apoio é muito importante para quem está passando esse momento. 

Mamãe em Construção: Como é a vida da Marina agora, ela necessita de algum cuidado especial por ter sido prematura extrema? Ou somente aquele cuidado normal excessivo de mãe?
Bella: Hoje em dia ela não tem nenhum cuidado especial, eu não sou aquela mãe cuidadosa ao extremo, excessiva. Quando ela saiu do hospital parei de pensar nela como prematuro extremo, ela vai ter uma vida normal, eu vou oferecer coisas a ela que uma criança normal teria tido. Então, eu sempre conduzi tudo, na minha criação, dessa forma, óbvio que tudo com parcimônia, mas Marina brinca no chão, eu não sou aquela mãe paranoica, porque ela é prematura, pelo contrário, ela é muito forte, muito resistente. Desde que chegou aqui ela adoeceu, algo mais sério, uma vez só, que pra gente é bom, pois desde que ela saiu da UTI ela teve só isso, que precisou de uma intervenção médica, a única coisa foi isso. E ela é muito desenvolvida, falando em termos motor, algumas mães me procuram, querem saber o que é que eu faço em casa. Eu brinco muito com ela, o fato de eu passar essa temporada na Alemanha me deu a oportunidade de ficar 24 horas com ela, então eu sempre estimulo como eu posso e brinco, faço atividades que ajudam no desenvolvimento dela. Ela está andando, sentou muito antes do previsto, engatinhou. 


As pessoas antigamente me perguntavam, porque ela era muito pequenininha, hoje a gente não consegue verificar a diferença dela para as crianças da mesma idade e as pessoas ficam impressionadas quando a gente diz que é prematura. Ontem mesmo nós fomos na casa de um casal que conhecemos aqui, de alemães, e a esposa é enfermeira neonatal, ela brincando com Marina perguntou de quando ela era e a gente falou que ela era prematura e ela não acreditou, disse que trabalha com isso e que jamais olhou pra Marina e disse que ela era uma criança prematura, pois pelo fato dela conviver ela consegue identificar.


As pessoas se surpreendem quando a gente diz que ela é prematura, principalmente, porque é prematura extrema. Mas eu tive muita sorte e fui muito abençoada, porque aquele primeiro momento que a médica me relatou que ela podia não andar, que ela podia não falar, eu não pensei nessa forma. Eu coloquei na minha cabeça de que se Deus iria me dar um bebê que não pudesse andar e falar eu iria aceitar de coração e Ele me presenteou com uma criança extremamente ativa, saudável, que é uma alegria na nossa vida. A Marina é uma criança muito alegre, a gente fica encantado, porque passou tudo que passou, todo o sofrimento, ela é uma criança muito alegre, ela é muito ativa, curiosa, cada dia uma novidade, a gente ri, se surpreende muito com ela, ela é muito expansiva, até hoje nunca estranhou ninguém. O fato dela estar longe da família fosse influenciar isso, mas ela praticamente se joga para as outras pessoas, quando vê outra criança grita "êêêê", bate palma, adora uma bagunça, uma festa, então a gente só se sente abençoado por tudo.

Mamãe em Construção: Como foi pegar a Marina pela primeira vez?
Bella: Então segurar ela pela primeira vez só aconteceu 10 dias depois que ela tinha nascido e eu não esperava porque como eles sempre tem muito cuidado para retirar o bebê da encubadora quando ele está entubado, eles evitam mesmo, só que nesse dia ela estava tendo um dia muito instável, a oxigenação estava oscilando muito e uma enfermeira que estava de plantão foi conversar com a médica para saber se poderia tirá-la da encubadora para poder colocar um pouco no meu colo para ver se ela se acalmava... e foi assim que eu segurei ela pela primeira vez, meio de surpresa, eu tenho uma foto mordendo a língua, por que eu estava muito ansiosa, com medo de segurar ela, porque a gente fica meio vulnerável por ser tão pequenininha, por estar com tantos fios, tantos tubos, a gente fica com medo de machucar. 
Só que essa enfermeira achou que colocando ela em mim ia acalmá-la, pois a respiração dela estava oscilando muito, a enfermeira achava que ela estava nervosa, insegura e quando eles colocaram ela em mim a respiração dela estabilizou e foram uns 30 minutos mais emocionantes naquela UTI. Foi quando eu senti pela primeira vez... ela veio agitada e se aconchegou no meu colo e fez o canguru e ela ficou ali quietinha, paradinha, uns 30 minutos e ela ficava meio que me beliscando com a mãozinha passando.  

Foi uma espera de 10 dias... você assistir sua filha durante 10 dias, não poder pegar, no máximo que eu conseguia fazer era abrir um pouco a janela da encubadora e colocar a mão nela, mas até isso eu ficava com medo, pois ela era muito frágil. Então foi uma espera e um momento muito emocionante pra gente, tanto pra mim quanto para o meu marido. De repente você esquece que está dentro de uma UTI que em volta tem não sei quantos bebês, que tem uma equipe médica pra lá e pra cá e fica tudo silencioso e fica só você e ela, é um momento indescritível.



-> E essa é um pouco da história da Marina, na verdade, só o começo da história linda de vida que ela terá pela frente.
Lembro como se fosse hoje quando a Bella colocou no facebook que a Marina tinha nascido em Nova Iorque, foi pedir a Deus que os protegessem, que tudo de melhor acontecesse. Lembro de brincar com a Bella dizendo que na verdade a Marina queria ser muito chique e dizer que nasceu nos Estados Unidos, pois eu imaginava o quanto ela deveria estar nervosa e ansiosa para que o tempo corresse e a Marina saísse logo daquele hospital e aliviar aquela tensão era uma forma de ajudar, além da oração. A gente que não passou por momentos de UTI só pode imaginar, não tem como mensurar, mas é indescritível como uma mãe consegue se compadecer e sentir um pouco a dor de outra mãe, e foi isso que aconteceu comigo e com certeza aconteceu com cada um que leu essa história.
E agora cada um de vocês poderá dizer, eu conheço um milagre e ele se chama Marina.

Muito obrigada, Bella e Raphael por permitir contar essa linda história aqui no blog, por ajudar outros pais que podem estar passando pelo mesmo que vocês passaram, por mostrar uma criança linda, forte, saudável e guerreira desde o primeiro minuto que resolveu vir para esse mundo. Muito obrigada!!!

Marina, um pequeno grande milagre (parte II)

E vamos a segunda parte dessa linda história sobre o nascimento da Marina, caso tu não tenhas visto a primeira parte, ela está aqui no link.

A entrevista foi de uma vez só, mas como disse preferi dividi-la para que não ficasse uma leitura muito extensa e assim não precisasse cortar nenhum detalhe importante.

-> Essa primeira pergunta, foi entre as perguntas do tempo de gestação e o nascimento da Marina, mas a Bella preferiu respondê-la depois para poder respirar um pouco para continuar falando tudo que ocorreu a partir do parto da Marina.

Mamãe em Construção: Tu achas que fizeste algo de diferente no dia que pudesse ter provocado o parto prematuro? Ou tu achas que foi a mesma intensidade de um dia normal teu, até mesmo fazendo o enxoval normal da cidade que estavas morando? 
Bella: Quando eu me perguntei "o que eu fiz de diferente para ter provocado isso?" E fazendo uma revisão mental, naquele dia eu não fiz nada que eu não estivesse acostumada a fazer, como eu disse antes, eu tinha uma rotina muito pesada, eu trabalhava andando, dava aula, então pra mim eu não fiz nada que não fosse parte da minha rotina. Então não teve justificativa.
...

Então... depois que levaram ela nessa maca eu não a vi mais, eu fiquei nessa sala de espera questão de uns 10 minutos. E nesses 10 minutos a gente escutou muita correria, pessoal gritando, acionando outras pessoas. 
E quando me tiraram dessa salinha de espera me levaram para a sala onde ela estava que era um centro cirúrgico. E quando eu cheguei nessa sala, eu vi mais ou menos uns 20 profissionais, as pessoas todas assustadas, foi quando eu vi a minha filha pela primeira vez. Ela estava numa maca, e de relance eu verifiquei que eles estavam fazendo massagem cardíaca nela e o monitor estava apitando como se estivesse parado. 
E eu vim para essa sala junto com ela, eu fiquei numa maca do lado, pois a gente precisava assistir para ver o que estava acontecendo, tinha uma cortina que separava a gente e quando eu me desesperei ali naquele momento, porque quando ela nasceu eu fiquei desfalecida, eu não sentia o meu corpo, eu fiquei fora de mim.
Meu marido teve que sair da sala, pois ele precisava acionar a papelada, um monte de coisa, os americanos são extremamente burocráticos com essas coisas e eu fiquei lá naquela sala desfalecida. 
Eu não me comunicava com a equipe, pois eu falava pouco de inglês, pouco mesmo, meu marido é que se comunicava. E aí veio uma enfermeira falar comigo e ela falava espanhol e ela falando comigo e eu fazia "como é que está a minha filha?". E ela disse que eu tinha que ficar calma para não atrapalhar a equipe. E eu ficava "como está a minha filha? Eu quero ver minha filha! Eu quero ver minha filha!" e ela puxou um pouco a cortina de uma forma que eu conseguia visualizar o que estava acontecendo. Nesse tempo que eu fiquei observando, foi o tempo que estavam esperando a equipe de resgate, eu vi a máquina parar umas 5 vezes mais ou menos e eu gritava pelo nome dela na hora que parava "Marina, a mamãe tá aqui! Mamãe, tá aqui!" Até que teve um momento que eles começaram a rir e comemorar, eles tinham estabilizado ela e tinha chegado a equipe de resgate com a encubadora e todos os equipamentos necessários e eles colocaram ela dentro da encubadora e foi então que o médico foi dar atenção a mim. 
Foi a hora que ele foi retirar a minha placenta e ver como é que eu estava. Eu não sentia dor nenhuma, foi tudo feito sem anestesia, eu estava em transe, eu não sei explicar. E o meu marido tinha saído para resolver a burocracia, para assinar os papéis para a transferência de Marina para o hospital especializado e eu estava ali meio que assustada.
E quando puseram ela na encubadora, essa enfermeira veio me perguntar como era o nome dela e eu disse que ela ia se chamar Marina. E ela falou pra mim que não, que o nome dela tinha que se chamar Milagros e apontando para a plaquinha da farda dela que o nome dela era Milagros e eu fiquei toda emocionada e comecei a agradecer a equipe.
Aí uma médica, que era uma das médicas responsáveis desse hospital especializado que veio buscá-la, chegou pra mim e disse que tinha sido bom que eles tinham conseguido estabilizar Marina, mas que não era momento para comemorar e que a batalha daqui para frente seria muito grande, que ela poderia não andar, que ela poderia não falar, que ela poderia ter muitas sequelas pelo tempo que ficou sem oxigenação e que não era o momento para comemorar. Por aí você tira, ali que meu mundo caiu de verdade. 
E eles levaram ela para o hospital especializado e eu fiquei nesse hospital, pois a gente não podia ir na mesma ambulância.

Até o tempo de chegar a outra ambulância, assinar a papelada para me transferir para o hospital, eu fiquei mais ou menos 1 hora e meia ainda. E a gente não tinha notícia de como tinha sido o transporte, o que tinha acontecido, a gente não sabia de nada. Eu e meu marido estávamos perdidos, literalmente, a gente não conseguia se olhar, a gente estava muito abalado. 
Quando chegou nesse outro hospital, eu tive que passar por uma triagem inicial, pois eles não tinham o meu histórico, não sabiam de nada e eu pedia por favor, implorava por notícia, eu queria saber se a minha filha estava bem, como é que ela estava. Mandei meu marido ir atrás, não ficasse comigo, que eu ficasse sozinha, pois não precisava ficar comigo. E ele foi atrás dela e desceu, depois de algum tempo, com a médica responsável, a médica que tinha recebido ela. E veio a doutora, o primeiro anjo da nossa vida, a doutora Annemarie, ela explicou toda a situação, como eles tinham recebido Marina, que era um caso, ela não falou grave, mas que era difícil, que a gente ia passar por momentos muito difíceis, mas que ela estava ali junto para nos ajudar. 
Foi quando me deu a notícia que eu não poderia ver Marina, pois eles tinham que fazer todos os exames, já que eles não tinham o meu histórico, até para saber se eu ia poder amamentar, para averiguar o que tinha provocado o parto normal. E eu fiquei desesperada, pois eles chamam esse período de quarentena lá, que são as 40 horas, e eu comecei a chorar, desesperada. E ela então me falou que ia fazer o seguinte, e nisso eu falando para ela que todos os meus exames tinham dado negativo, que eu não tinha HIV, que eu tinha feito o pré-natal tudo correto, que eu tinha feito uma morfológica e que estava tudo bem, e ela falou que ia pedir uma bateria de exames simplificada primeiro e para eu conseguir ver Marina e depois que ia pedir uma mais completa. E 8 horas da noite houve a liberação para eu ir vê-la.  
...
Marina nasceu com 800 gramas e 33 centímetros, só que na barriga o bebê ingere muito líquido amniótico, né?! Então ela perde assim que nasce e com a perda de líquido ela chegou a pesar 670g. Então o marco de contagem de peso dela começa a partir desse peso, 670, porque é a partir daí que ela começou a ganhar. 
A UTI é dividida em 3 alas, a ala intensiva, a semi-intensiva e a pré, que é quando o bebê já está em preparação para receber alta. 
Marina ficou na ala intensiva 28 dias. Um dos grandes problemas é que como o parto foi de imediato, eu não tive tempo, ela não recebeu medicação para desenvolver o pulmão, para amadurecer o pulmão, e por não ter essa medicação o pulmão dela não nasceu desenvolvido. Então ela foi entubada, ficou recebendo ventilação mecânica durante mais ou menos 10 dias. 
Os médicos tentam extubar o mais rápido possível porque o risco de infecção é muito alto quando o bebê fica entubado. Então eles extubaram ela, fizeram uma tentativa de extubar, e ela ficou apenas 2 dias, não chegou nem a 2 dias extubada e não conseguiu ficar e eles a entubaram novamente. Isso pra gente foi um momento muito crítico, porque, além dessa questão dela ter sido extubada e entubada novamente, eles falam muito de que o caso regrediu. Então todos aqueles 10 dias eles reiniciam para preparar para extubar.
E quando tudo aconteceu eu fui pesquisar muito até para saber até o que estava acontecendo e eu vi vários relatos de infecção pulmonar, na verdade o maior risco era de infecção e que alguns bebês não resistiam. Então foi um período muito tenso e durante esse período a gente ficou na expectativa da válvula do coração fechar, se não precisaria de uma cirurgia e foram feitos 3 ciclos de medicação na tentativa de fechar a válvula e, a gente brinca que foi na prorrogação do segundo tempo, a válvula fechou e não foi preciso fazer uma incisão cirúrgica.
Ela foi extubada com 26 dias que estava na UTI intensiva e permaneceu as 48 horas bem e com ela permanecendo bem, ela foi transferida para a semi-intensiva. A semi-intensiva não são os casos mais graves, mas é uma ala da UTI bem tensa, pois é o momento de espera. Basicamente lá consiste em tirar a ventilação mecânica da criança, que é ela respirar sozinha sem a ajuda de aparelho e ganhar peso.
Durante esse tempo, que foi o maior tempo de Marina, a gente ficou naquela coisa de ganhando peso e a ganha de peso, para quem vivencia uma UTI sabe, que é mínima, são graminha que ganha por dia e que lógico que a gente comemora ( MC-> nesse momento eu senti o sorriso da Bella contando e imagino como deve ser muito comemorado). E foram trocados 3 aparelhos, cada um auxiliava de forma diferente na respiração dela, ela não respirava sozinha, ela recebia uma ajuda, só não era mais entubada, ela recebia essa ajuda já pelo nariz. 
E nesse período vivenciamos fases difíceis e bons momentos, pois Marina não teve nenhuma infecção, mas ela teve o que eles chamam de anemia prematura. A médica nos explicou que no momento do parto a mãe passa as hemácias que auxiliam na respiração e ela não produzia essas hemácias sozinha, ela precisou fazer 3 transfusões sanguíneas, foi bem difícil, pois ela precisava ter uma quantidade X de hemácias no sangue para ajudar na oxigenação e ela não produzia. E ela tinha um peso muito inferior para poder tomar uma medicação, uma vacina, que ajuda na produção dessas hemácias e ela não tinha esse peso e até atingir esse peso ela teve que receber essas 3 transfusões sanguíneas. E foram bem difíceis pra gente, pois a gente sabe o risco que corre, mas ela foi evoluindo, ganhando peso, uma espera longa e finalmente eles retiraram os aparelhos. Óbvio que uma progressão e finalmente começou a respirar sem o auxílio dos aparelhos e a gente foi para uma terceira fase que é a fase de espera de verificar como é que está o bebê para poder ter alta.


Depois que o bebê fica em observação alguns dias, ele tem que ficar um intervalo de 5 dias sem ter nenhum problema respiratório. E quando a gente estava para receber alta, lá nos Estados Unidos para você levar um bebê da UTI, você precisa fazer um curso de reanimação cardíaca e essas coisas todas, pois você vai levar uma criança para casa e você tem que saber lidar com ela, uma criança prematura. E a gente tinha acabado de voltar do curso quando eu cheguei no bercinho, ela já estava no bercinho, eu vi ela roxa e ali eu apliquei pela primeira vez o curso. 
Marina teve, o que eles chamam de, refluxo prematuro, que é quando o bebê se engasga com a própria saliva e ele se sufoca, ela para de respirar, ela fica sufocada e o coração desacelera. E aí Marina apresentou isso pela primeira vez, a partir daí ela começou a ter, praticamente, isso todos os dias e foi aí que começou a parte mais difícil, porque a gente não sabia o que para gente parecia ser o fim e ela ia receber alta, começou uma nova guerra para ela parar de ter esses episódios e nessa brincadeira foram mais 3 semanas no hospital, até ela completar os 5 dias sem apresentar nenhum episódio.
E foi muito difícil, pois a gente já estava naquela expectativa de ir pra casa, nós já estávamos cansados de estar longe, de estar em um país diferente, a gente queria o aconchego da família. E o que parecia que era algo chegando ao fim, parecia ser algo cada vez mais incerto. E os médicos já não estavam mais confiantes dela viajar de avião, então, eu digo, que foi o momento mais desgastante de tudo.

Mamãe em Construção: Conversando com muitas mães, que querem fazer o enxoval fora do país, elas também comentam de acontecer do bebê nascer lá e o que fazer com plano de saúde. E gostaria de saber como isso tudo se procedeu em questão de valores com custos dos hospitais, se foi a partir do seguro viagem, se foi necessário acionar o plano de saúde do Brasil? Para que todas as mães já saiam daqui mais ou menos seguras nessa questão.
Bella: A gente fez um plano de saúde que me cobria grávida, mas não existe nenhum plano de saúde que cobre o bebê, já que ele ainda está na barriga. Então o meu plano de saúde cobriu todas as minhas despesas, mas Marina não estava coberta. E foi uma das brigas da gente, graças a Deus, como eu disse antes, minha gestação foi tudo bem, eu tinha atestado médico, o histórico do pré-natal feito e todos os exames que foram feitos no próprio hospital. Foi feita uma biópsia da minha placenta, eles não encontraram nenhuma causa que justificasse o parto prematuro, eles falam em causa congênita como se ela estivesse pronta para nascer naquele momento. 
O fato dela ter nascido de parto normal fez com que Marina fosse assim coberta pelo Medicaid que é o sistema de saúde gratuito que tem lá. A saúde nos Estados Unidos é particular, não existe um SUS, e o medicaid é como se fosse um plano que o governo tem para socorrer as necessidades. Diante de todo esse processo a gente comprovou que ambos trabalhávamos de carteira assinada no Brasil, que a gente foi lá a passeio, que a gente não tinha nenhum histórico de que Marina podia a vir nascer nessa viagem. E diante de todas as provas que a gente apresentou, o Medicaid cobriu Marina, para nossa sorte, pois a conta do hospital seria impagável.
Recentemente até veiculou na internet uma mulher que devia milhões, pois o bebê tinha nascido nos Estados Unidos, então por aí você tira.
As pessoas até ficaram curiosas, foi quando as pessoas despertaram para o que tinha acontecido com a gente, mas o medicaid, felizmente, cobriu tudo, absolutamente tudo. A Marina ficou no 2º melhor hospital do país, na melhor UTI neonatal, o tratamento dela era uma assistência de primeira, isso a gente não pode reclamar. Inclusive, eu sempre relato que foi a nossa sorte, por que naquela época o Acre estava vivendo uma enchente e ele não teria estrutura. (-> na época o marido da Bella estava servindo em Rio Branco, no Acre
Até conversei depois com alguns profissionais, com o meu próprio médico, que o Acre até tem a infraestrutura para receber um bebê prematuro, ele não tem é a mão de obra capacitada pra lidar. E eu conversei com uma mãe que teve um bebê na UTI de lá e ela me disse que o bebê dela nasceu de 28 semanas e disse que nunca viu um bebê mais novo sobreviver lá. Então pra gente estar nos Estados Unidos nesse momento foi o melhor, eu falo muito que foi providência.
Quando eu estava para ir fazer o enxoval eu tive uma intuição e minha mãe ficou "não vai, não vai, não vai" e eu fiz uma oração e naquele momento eu sabia que eu tinha que ir. Eu brinco que foi Deus me encaminhando para o lugar certo, foi para dar as condições de Marina lutar. Estar nos Estados Unidos nesse momento foi tudo, em nenhum momento eu me culpei por ter ido fazer o enxoval, por ter passado por tudo aquilo. Nos primeiros momentos que tudo isso aconteceu, é óbvio que você se pergunta. Mas eu recebi o apoio certo, das pessoas certas que me disseram de que eu tinha que confiar , que Deus ia providenciar um milagre e que a gente estava no lugar certo. Então eu coloquei isso na minha cabeça de que a gente estava no lugar certo e apontei para a fé e remei.
Eu sei que depois de mim todas as minhas amigas próximas ficaram com medo de fazer o enxoval, mas as coisas acontecem quando tem que acontecer. Essa é uma parte da história que eu não questiono.   

- > Bom, vocês sabem que essa história ainda não acabou, na verdade ainda tem muito mais coisas para serem contadas e por isso precisei dar uma pausa para vocês se recuperarem e depois volto com mais. Até porque a Bella ainda nem contou como foi e quando foi que ela conseguiu pegar a Marina no colo, os conselhos dos médicos e todo o processo de volta para o Brasil, além de como foram e são os cuidados com a Marina.

Já falei demais e espero que em 2 dias eu consiga voltar com mais dessa história de vitória, pois eu estou amando contar tudo isso, pois acompanhei de longe e rezei muito. Pois parece que só quem é mãe consegue imaginar um pouquinho do que passa outra mãe.  

Marina, um pequeno grande milagre (parte I)


Eu conheci a Izabella, mamãe da Marina, em 2012 no Rio de Janeiro, ela como eu estava acompanhando o marido militar em mais uma transferência, aquela apenas de 1 ano para um curso.
A Bella era uma das pessoas responsável por adoçar aquela Vila Verde com as suas delícias. Foi responsável pelo lindo bolo do batizado da Malu e ainda me deu um curso maravilhoso de cupcakes. 
A Bella é cheia de dotes, mas é psicóloga por formação e quando está no Brasil, atua muito bem na área.
Agora, ela, o marido Raphael e a pequena Marina, estão morando na Alemanha, mas logo, logo já voltam para o Brasil.
Mas vocês devem estar se perguntando, mas por qual motivo a Marina é um pequeno grande milagre...
Agora eu conto para vocês numa entrevista linda e emocionante que fiz com a Bella.
Mas como a história é cheia de detalhes farei dividida para vocês acompanharem melhor.

Só um breve relato para vocês terem uma ideia do que se trata essa linda história, a Bella e o Raphael engravidaram e decidiram fazer o enxoval da Marina nos Estados Unidos. A Bella estava com 25 semanas de gestação quando foram e a Marina decidiu que não queria mais aguardar para ver o mundo da barriga da mamãe e decidiu nascer em Nova Iorque... Daqui vocês já tiram um pouquinho do que vem por aí, mas ele começa bem antes disso. 

Mamãe em Construção: A Marina foi planejada? Quanto tempo demorou para conseguir engravidar?
Bella: Marina foi planejada, sim. Nós passamos 2 anos tentando engravidar, só que não estava conseguindo, por que eu tinha SOP (síndrome dos ovários policísticos) e hipertiroidismo e a junção dos dois não estava possibilitando que ocorresse a ovulação. Então ficamos 2 anos tentando engravidar com acompanhamento de ginecologista e endócrino, mas não conseguimos.
Eu não estava conseguindo engravidar, então nos últimos 6 meses antes de engravidar de Marina eu fiquei livre, fiz o tratamento pra SOP, estava controlada a tireoide e a gente ficou livre, na expectativa de engravidar ou não. E um desses dias eu passei muito mal, eu estava indo atender e me senti mal. Aí fomos para um posto médico e quando chegamos nesse posto médico a médica falou pra mim, você está com todos os sintomas de gestação, você está grávida, né?! E nós ficamos super felizes, só que fui fazer o exame de sangue que ela solicitou e deu negativo. E eu toda frustrada, pois eu sentia que estava grávida. Aí a gente foi para o ginecologista e ele achou melhor, por estarmos muito desgastados dessa espera, que seria a hora de começar o processo de fertilização. E aí como o meu exame de gravidez tinha dado negativo, ele passou as medicações para a indução de ovulação e ficou na expectativa de que eu tomasse essa medicação e assim que a menstruação descesse eu viesse para fazer ultrassom e a coleta dos óvulos.
E eu fui pra casa "agora vai dar certo", só que nada da minha menstruação vir, nada de descer. Eu já tinha deixado mais ou menos marcado quando seria a volta, a secretária me ligou e eu disse que nada de menstruar ainda. E ela disse que era normal. E eu tinha tomado a medicação para ovular e nada de menstruar.
Detalhe que nesse período foi orientado que a gente tivesse relações com camisinha para não atrapalhar a coleta dos óvulos. Então na minha cabeça não estava menstruando, eu não poderia estar grávida, então eu fiquei relaxada, eu disse "Ah deixa pra lá!" e toquei a vida normalmente. Até que na pós graduação uma colega de trabalho que era enfermeira me chamou, eu estava com um vestido longo, assim mais folgado, e falou assim "Tu já tá grávida, né? Eu sei que a gente não gosta de contar isso nos primeiros meses, mas pode dizer pra mim que tu já tá grávida." E eu disse "grávida? Tô não, mulher! Eu fiz um exame, deu negativo e aí agora estou na expectativa da coleta dos óvulos". E ela falou "não, Bella, você está grávida, eu conheço uma grávida de longe, veja como seu quadril já está largo, sua mama já aumentou de tamanho" e eu afirmando que era impossível, pois tinha feito o exame e estava tendo relações com camisinha. E ela me disse que ao sair dali eu comprasse um exame de farmácia e depois me dissesse se eu já estava grávida ou não, afirmando que conhecia uma grávida de longe.
Fiquei descrente, pois quando tudo não dá certo você começa a não acreditar em certas coisas. Fui comprar um almoço na volta da pós graduação e tinha uma farmácia na frente, aí falei "vou lá, não custa nada tentar" e comprei 2 exames de farmácia.
Coloquei dentro da bolsa e esqueci, só que quando foi à tarde eu fui fazer xixi e vi o exame dentro da bolsa no canto do quarto, aí resolvi testar. Quando fiz o exame de farmácia, na mesma hora que eu coloquei o palitinho deu gestação. Fiquei pensando como é que pode, desci toda feliz para contar pro meu marido, só que ainda falei para ele não criar expectativa, porque eu fiz às 4 horas da tarde, pode não ser. Sabe como é? Gato escaldado...
No outro dia pela manhã eu fiz o segundo exame e também deu positivo, super rápido também, aí eu fui para o posto de saúde para pegar solicitação para fazer o exame de sangue. Só que eu conhecia a bioquímica desse posto de saúde e ela me ligou ao meio dia, pois como eu estava numa expectativa muito grande e elas também, pois já me conheciam e sabiam que eu estava tentando engravidar, me ligou e disse que eu estava grávida , sim, e que no quantitativo tinha dado muito alto, então ou estava de algumas semanas ou eu estava com uma gravidez gemelar.
Só que aí veio a grande surpresa, eu já estava grávida de 10 semanas, vimos quando fui fazer a ultrassonografia e aquele exame que eu tinha feito um mês e meio atrás, eu já estava grávida ali e o exame de sangue deu negativo. Foi uma surpresa muito grande, porque a gente estava na expectativa de fertilizar e eu cheguei a tomar a medicação para a ovulação e ficou tudo bem, deu tudo certo.    

Mamãe em ConstruçãoA gestação foi tranquila?
Bella: Antes de descobrir, minha gravidez foi assintomática, eu não sentia nada, absolutamente nada. O pessoal diz que enjoa, tem muito sono, eu não senti nada, a única que aconteceu foi o dia em que a minha pressão caiu que foi esse dia que eu fui pro postinho e fiz o exame que deu negativo. Então eu toquei a minha vida normal.
A partir do momento que eu descobri que estava grávida, foi do mesmo jeito, eu tive uma gestação muito tranquila. Eu não senti enjoo, eu não tinha sono, eu tinha uma rotina de trabalhar de 7h30min da manhã até 10h30min da noite, então eu tinha uma rotina muito corriqueira, aquela coisa de saindo de um emprego para outro emprego e então, digamos, que eu não tive tempo de sentir essa gestação. Aquela coisa de dizer que está com sono, pelo contrário, eu fiquei mais ativa do que era antes.

-> A partir daqui as perguntas se entrelaçavam e por isso prefiro colocar todo o relato da Bella sem cortes para as perguntas.

Mamãe em ConstruçãoCom quanto tempo estavas de gestação quando viajaste para fazer o enxoval?
Bella: No dia que a gente viajou eu estava grávida de 25 semanas. Até então a viagem estava sendo muito tranquila, eu não tinha sentido nada e um dia a gente tinha saído pra passear e eu estava com muito frio, pois estava muito frio, acho que naquele dia Nova Iorque estava com -17º. E eu estava me sentindo assim contida, aí falei para o meu marido que era melhor ir para o hotel, pois eu não estava sentindo a Marina mexer, podia ser o frio, e que eu não estava me sentindo bem. Fomos para o hotel e quando chegamos eu fiquei tranquila, tomei um banho, relaxei, falamos com uma amiga pelo skype, conversando, mostrando o enxoval, tudo bem, não senti nada de diferente e fomos dormir.


Quando foi 2 horas da manhã, eu acordei sentindo uma dor muito intensa como se fosse uma vontade de fazer cocô, eu não sabia explicar, e falei para o meu marido que estava com uma dor muito forte, muito forte. E ele me perguntou como era essa dor, aí na mesma hora eu disse "passou". Aí eu voltei a dormir e quando foi mais um pouco eu acordei novamente com essa dor forte e fui no banheiro. Quando fui no banheiro veio um pouco de sangramento, só que eu conhecia amigas que tinham tido não sei quantos descolamentos de placenta que sangravam, aquela coisa toda, então eu comentei com o meu marido de que pudesse ser isso e disse que precisava ir no hospital amanhã pra verificar isso e voltei a deitar. E novamente eu acordei com aquela dor intensa de novo e quando eu acordei com essa dor intensa novamente, foi aí que me deu um estalo que a dor vinha e voltava, falei pro Rapha "eu tô com contrações, então acho melhor a gente ir pro hospital".
Meu marido acionou o plano de saúde e explicou que eu estava com uma dor abdominal que vai e volta. E o plano de saúde direciona você para uma urgência mais próxima ao hotel. E a gente pegou um táxi e foi para a urgência.

Quando chegou nessa urgência eu já cheguei praticamente em trabalho de parto, não foi tempo que levou pra chegar lá não, foi uns 15 minutos. Eu cheguei com contrações de 3 em 3 minutos. Só que não era uma urgência pediátrica, era uma urgência dessas urgências normais e na hora eles me conduziram para uma sala de espera, pois estava lotada, 3 horas da manhã. Era uma salinha de espera, não era uma sala de atendimento, pois eu estava chorando de dor.
E lá eles verificaram a minha pressão, que estava normal colocaram um aparelho de ultrassom e Marina estava com batimentos cardíacos também, pois eles fizeram isso para verificar se eu estava tendo um aborto e constatou que ela estava com batimento cardíaco e a enfermeira verificou que eu estava em trabalho de parto realmente e o médico veio para fazer o toque pra saber com quanto de dilatação eu estava. 
E quando ele veio para fazer o toque, na hora que ele fez o toque a bolsa rompeu.

Nossa vem um filme na minha cabeça...

Aquela água caiu com tudo, porque eu estava numa maca, no chão, um barulho de água caindo no chão. E o meu marido por trás perguntou o que estava acontecendo e eu disse que a bolsa rompeu.
E eu comecei a dizer "o bebê tá vindo! O bebê tá vindo! Tá nascendo! Tá nascendo!" E o médico desesperado gritando com o meu marido dizendo que a gente não poderia ter ido pra lá, por que essa urgência ela não tinha UTI neonatal, não tinha sequer pediatra de plantão e nem obstetra, era um clínico que fez o parto da gente. 
E nessa história de gritar "o bebê tá nascendo!", Marina nasceu. E eu não cheguei a ver e quem viu foi meu marido. Ele relata que ela não tinha nenhum movimento vital, quando nasceu não chorou e eles colocaram ela numa maca e ali começaram o processo de reanimação. E eu fiquei lá naquela sala e eles saíram com ela.
Essa é a única lembrança que eu tenho desse momento.


-> Eu sei que vocês estão querendo me matar, mas essa história real cheia de emoções continua...

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